
Aconteceu nestas últimas semanas, quando estava em Portugal a tratar dos meus assuntos pessoais: documentos, consultas médicas e afins. Estava eu na sala de espera de um centro clínico de análises quando o meu telemóvel apitou, a indicar a chegada de um email. Li, fiquei uns segundos a digerir a informação, e os minutos seguintes aos pulos de alegria, perante o olhar embasbacado de todos os que se encontravam à minha volta.
Neste ponto, vamos fazer pause e um rewind nesta história.
Estamos agora em Setembro de 2011. Eu acabo de aterrar em Bruxelas, de armas e bagagens, e estou maravilhada com o mundo a acontecer na capital da União Europeia. Tantas oportunidades, tanta vida, tanto futuro promissor!
Assim que me instalei, e depois de ter dado as tradicionais voltas pela cidade, ainda antes das aulas começarem, perdi umas quantas horas a navegar pela internet à procura de trabalho. Havia inúmeros sítios que queriam gente como eu. Comecei a enviar currículos feita parva para todo o lado. De todas as posições às quais me candidatei, uma mereceu especial atenção: os estágios pagos (bem pagos) de jornalismo do Parlamento Europeu.
O processo de candidatura era uma burocracia do caraças: pediam uma carrada de documentos, queriam uma carrada de informações inúteis. Devo ter demorado uns dois dias até ter aquilo tudo pronto. Na opção do local para o qual me candidatava escrevi: Bruxelas. Só que na altura estava mega apaixonada, tinha o meu namorado em Portugal e, a seguir a um ataque de saudades, voltei ao documento (antes ainda de o enviar, claro) e acrescentei - opção 2: Lisboa.
O tempo passou, as aulas começaram e o entusiasmo em procurar emprego foi esmorecendo. Tive duas ou três respostas que não deram em nada e como as aulas me tiravam o fôlego durante a semana toda, decidi primeiro terminar o Mestrado e depois pensar em emprego.
Em Dezembro, já o namorado tinha ido à vida, recebi um email do Parlamento Europeu: "Cara Marta, gostámos muito do seu currículo blablabla, fica em lista de espera blablabla, senão volte a candidatar-se da próxima vez!" Como soube que imensa gente tinha recebido aquela carta, encolhi os ombros e não pensei mais no assunto.
Voltamos então para o momento em que eu estou num centro de análises clínicas e o meu telemóvel toca com o aviso da chegada de um email. Dizia mais ou menos assim: "Cara Marta, afinal a pessoa selecionada não vai poder aceitar o estágio e, por isso, a posição vai para si que é a primeira da lista. Case aceite, envie os documentos X e Y que vai ficar no gabinete de LISBOA do Parlamento Europeu a partir de Março."
A ironia do destino é mesmo lixada. Agora que já nada me prende a Portugal e que eu cada vez mais imaginava a minha vida na Bélgica é que sou recambiada para lá outra vez. Mas o Parlamento Europeu é sempre o Parlamento Europeu, e as minhas aulas até terminam exatamente em Março, por isso, só se eu fosse totó é que não aceitaria.
E neste momento, dou por mim a aproveitar os dias que me restam por Bruxelas, apaixonadíssima pela cidade, a prometer em cada rua, em cada muro, em cada esquina, voltar assim que me seja possível.